Uma Palavra Sobre “Placas de Bruxismo”

Deparei-me com um artigo científico com o título:

Placas orais:muletas no tratamento das disfunções da ATM e do Bruxismo?

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Tento ser muito seletiva quando quero dedicar um tempo a este tipo de leitura. O fato é que estou cansada de ler coisas que são publicadas devido às pressões das faculdades sobre os alunos por uma corrida frenética em busca do aumento de número de publicações (em detrimento à qualidade dos dados), e também à falta de honestidade de muitos autores em não mencionarem os conflitos de interesse envolvidos nos estudos, principalmente quando a indústria farmacêutica está envolvida. Este é um assunto sério. Mas vamos voltar ao que interessa: este artigo me chamou atenção por causa do subtítulo: On behalf of: International and American Associations for Dental Research.

Tratava-se de uma revisão crítica, em nome das Associações Internacional e Americana para Pesquisa em Odontologia, sobre os artigos escritos a respeito dos dispositivos orais, que aqui são chamados de Placas (alguns dizem placa de bruxismo, placa miorrelaxante, etc, etc).

Em sua análise, os autores questionaram a salva de artigos que falam sobre os efeitos da placa sobre o bruxismo, numa conclusão que retrata o que eu sempre vejo nos artigos que leio. A descrição é tão perfeita, que aqui eu copio:

“Se reconhecermos que as aparentes melhoras apontadas na maioria dos estudos sobre dispositivos orais são na verdade devido a fatores não específicos do tratamento (por exemplo: placebo, relação terapeuta-paciente, evolução cíclica natural da condição, também conhecida como tendência de regressão para a média (Whitney e Von Korff, 1992*), então nós temos que concluir que as placas devem ser usadas apenas como coadjuvantes no manejo das dores dos pacientes com DTMs (…) No caso do Bruxismo, como mencionado antes, é prudente limitar o uso das placas a uma mudança de hábito, e para prevenir/limitar os dentes do potencial dano que a DTM traz. Em resumo, é de cabal importância manter em mente que as placas não curam, mas podem contribuir para o bem-estar do paciente, apenas como as muletas, que são úteis como um “auxílio da cura durante a reabilitação ortopédica do paciente, mas não são cogitadas como a modalidade de tratamento primária ou definitiva”.

Eu mesmo tenho o hábito de encaminhar meus pacientes para dentistas com o objetivo de uma confecção de placa para proteção dos dentes. Digo que o procedimento é de extrema importância para que não haja a fratura de parte de uma cúspide dentária, não obstante nada se fale sobre o abalo das raízes destes dentes. Afinal, os desgastes, e até mesmo furos nas placas são a prova de que estes pacientes não deixaram de ranger/apertar com o uso das mesmas.

Após ter lido o artigo, pensei: está aí uma analogia interessante, pois ninguém quer ficar de muletas para o resto da vida, todos sabem que ela apenas protege o membro quebrado, mas não resolve o problema dele. No caso das muletas, apenas o uso destas levaria à atrofia. No caso da placa, temos o déficit proprioceptivo. Por que isto não fica tão claro no assunto da placa? Vamos direto ao ponto, sem blá blá blá: porque este é o único recurso que o dentista domina, e este é o profissional que agarrou, com unhas e dentes, uma questão pela qual a medicina simplesmente não se interessa. Ora, um assunto onde coexistem tantos fatores: biomecânicos, emocionais, ergonômicos, musculares, não é caso para um profissional, apenas. Não se trata gastando apenas uma folha de receituário. Exige conversa, esclarecimento, palpação, avaliação postural, análise do contexto da vida do paciente, e até mesmo uma boa dose de empatia.

Assim, como outros profissionais, como os Fisioterapeutas, Psicólogos, Médicos, não ocupam seus lugares, que são tão importantes no quadro das DTMs, cai sobre os Dentistas, a ilusão de que este paciente é só deles. É bom esclarecer, que casos em que o dentista, sabendo do equívoco, engana o paciente dizendo para ele que a placa, somente, é o que vai resolver o problema dele, existe. No entanto, o que mais vejo são aqueles que, bem intencionados, oferecem aquilo que sabem fazer, mas sentem-se, também, limitados por não verem, ao seu redor, uma equipe multidisciplinar com quem pode contar. Isto é uma realidade que nós, profissionais, temos a responsabilidade de mudar.

E por falar em responsabilidade, a boa notícia para quem tem bruxismo e, como vários pacientes que já atendi, já tiveram a experiência com a placa e não teve bom resultado, não se adaptou, ou ajudou por um tempo e depois não mais, e tantos outros, é que existe, sim, um tratamento eficaz para o bruxismo, que envolve uma consciência corporal, trabalho proprioceptivo de toda a região mandibular e também do pescoço, ombros, e toda a coluna, inibição dos pontos gatilhos de dor, entre outras intervenções, que são realizadas pelos Fisioterapeutas. Mas estes não têm suporte de nenhum laboratório. Eles usam as mãos como instrumentos. Sem efeitos colaterais. Talvez por isto eles estejam ocupados demais para publicar, como eu, que não consigo trabalhar sem contaminar todos os meus “dados” com a escuta, a mudança dos hábitos de vida, o ensinar a ouvir os sinais do corpo, fatores que, com certeza são vieses muito fortes para as análises estatísticas no que tange as DTMs.

Como eu já disse em um dos meus vídeos, o bruxismo tem a ver com falta  de controle. Uma boa pergunta, no que diz respeito à placa, é se ela pode, de alguma maneira, contribuir para o aumento da consciência corporal, oferecendo um terceiro ponto de apoio (artificial) no sistema mastigatório do paciente. Em alguns casos que vejo, eu chegaria a comparar a placa não a uma muleta, mas a uma camisa de força, onde o sintoma é contido sem que o real problema seja visto com olhos mais cuidadosos. Em outros casos, ouvi falar de pessoas que passaram por um momento ímpar de suas vidas, em que os sintomas apareceram e, com a placa, nunca mais houve lembrança do acontecido.

Mas é assim mesmo: muitas perguntas, algumas respostas, e todos buscando o melhor para cada indivíduo em si. É nisto que eu acredito.

*Para Whitney e Von Korff, geralmente influem no efeito placebo dos tratamentos oferecidos aos pacientes com dor: o interesse demonstrado pelo profissional, a empatia e afabilidade da relação entre o profissional e o paciente; a crença do paciente no resultado do tratamento; e o grau de sugestibilidade do paciente. No caso do bruxismo, onde os pacientes não se vêm com muitas alternativas de tratamento, este último é ainda mais forte.

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